domingo, junho 6

3 mulheres e os 3 melhores clipes do ano

A Janelle Monae já tinha um primeiro cd ótimo, agora ela continua com a viagem da androide chamada Cindy que foge e se apaixona por um humano, mas foi adotada pelo P. Diddy e tá fazendo estréia no mainstream.

Erykah Badu veterana, sempre bom, mas esse clipe novo é especialmente bom.

E MIA também fez um vídeo bom e, segundo a mídia, muito controvérso pois violento, mas eu não vejo controvérsia nenhuma, o vídeo é violento e bem claro: jovens ruivos (um grupo bem oprimida e conhecida por isso nas classes baixas da Inglaterra)em um contexto que poderia ser o fascismo europeu mas com a tecnologia atual (armas etc.) são pegos por um esquadrão e mortos e desmembrados, o que é basicamente o que acontece nas guerrilhas e genocídios do Sri Lanka e África. Achei direto e simples. Youtube censurou o vídeo.
Aliás eu não sabia mas o diretor desse clipe da MIA é o Romain Gavras, que tinha dirigido um clipe do Justice que também "causou controvérsia", e segue o mesmo clima do vídeo de born free: jovens de classe baixa e grupos discriminados na Europa (no clipe aparecem tipo imigrantes negros X jovens brancos pobres X árabes e por aí vai... É bem parecido com o clima nos conjuntos de habitação de Berlin oriental hoje), dessa vez com um cenário que se assemelha aos conjuntos habitacionais de países como França e Alemanha. Gangues ou o que seja brigando basciamente, bem violento também.





M.I.A, Born Free from ROMAIN-GAVRAS on Vimeo.

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segunda-feira, junho 29

Sobre a burca, direitos das mulheres e o ocidente

(Trabalho apresentado à disciplina Antropologia e Direito, USP)

Em discurso no dia 22 de junho de 2009, o presidente da França, Nicolas Sarkozy,
condenou em discurso o uso da burca, traje utilizado por algumas mulheres da religião
mulçumana, argumentado que a burca "reduz a mulher à servidão e ameaça a sua dignidade". Para Sarkozy, a burca "não é um sinal de religião, mas de subserviência" e não é "bem-vinda" na França. A república francesa não poderia aceitar que haja "mulheres presas atrás de redes, eliminadas da vida social, desprovidas de identidade" em seus espaços e, no momento, o Executivo francês apóia a criação de uma comissão parlamentar para estudar a proibição do traje nos espaços públicos do país. O que estaria em jogo seriam os direitos humanos da mulher e a igualdade de gênero, de modo que uma das missões da comissão parlamentar seria investigar se o uso da burca ou do véu se dão por adesão voluntária das mulheres mulçumanas ou por coerção da comunidade, dos maridos etc.
Casos polêmicos acompanham a controvérsia a respeito das vestimentas mulçumanas
na Europa Ocidental, como por exemplo o caso de uma professora que fora demitida na
Inglaterra por se recusar a retirar a burca em frente a homens, levou seu caso ao tribunal do trabalho e perdeu a causa por demissão sem justa causa(1). Outro caso, recente, foi o de uma marroquina que teve seu pedido de cidadania francesa negado por conta de sua “prática radical do Islã” (como foi interpretado o seu uso da burca), incompatível com o valor francês de igualdade entre os sexos, de modo que a candidata apresentava “assimilação insuficiente” à França (o critério da assimilação é geralmente associado à boa fala da língua francesa). A mulher recorreu à decisão alegando o direito à liberdade religiosa e deu entrevista ao jornal The New York Times declarando que o uso da burca foi uma decisão sua e não uma obrigação de seu marido ou parentes, mas seu pedido foi negado(2).
Os acontecimentos suscitaram uma discussão em torno das questões de direito de liberdade religiosa, igualdade entre os sexos e direitos humanos da mulher. Os argumentos a favor do pronunciamento do presidente Sarkozy são em geral de que a burca não é um exercício razoável do direito de praticar a religião, pois, assim como a mutilação genital, fere a dignidade da mulher ao privá-la de sua identidade, exercendo controle sobre sua imagem e corpo. Os contrários argumentam que não se pode colocar no mesmo saco os casos em que o porte da burca é voluntário e os casos em que se dá por obrigação, sendo que o Estado não poderia intervir nos primeiros, mas apenas nos segundo, pois o direito não pode interferir na relação do sujeito consigo mesmo. Ao mesmo tempo, os contrários ao uso da burca contra- 
























































argumentam que não há escolha em uma situação em que as mulheres aprendem desde meninas que se devem portar ou vestir de determinada maneira por serem mulheres, e que todos na sociedade reforçam esta mensagem, sendo a pressão tão grande a ponto da mulher que se afastar da regra ser acusada de desonrar a família e até morrer por isso.
Vou realizar aqui uma tentativa de iluminar a discussão por uma perspectiva antropológica, argumentado uma visão menos ingênua dos direitos humanos das mulheres e a respeito da juridicização de questões sensíveis à diversidade religiosa e cultural. Há uma lógica que comanda a juridicização do uso da burca e que não está necessariamente baseada em uma noção de dignidade da pessoa humana e da mulher, mas em um corpo de normas e regras e sanções (não apenas no sentido jurídico) próprios a uma sociedade determinada. O arranjo dos chamados direitos humanos, e em especial no tocante à mulher, não existe fora de um sistema de valores e crenças sociais – o direito expressa conceitos culturais – e talvez a discussão se beneficiaria da explicitação desse sistema e sua avaliação de um ponto de vista normativo, da qual a avaliação do sistema islâmico não pode ser dissociada, sob rico de se tornar tirânica e imperialista. Devemos nos conscientizar do papel dos direitos humanos como
projeto hegemônico ocidental; eles só podem ser levados a sério e não serem alvo de cinismo se os esquemas de codificação de ambas as sociedades, ocidental e islâmica, forem levados igualmente a sério na tentativa de avaliar cada um deles e a maneira de fazer isso é comparando pontos de vista e não realidades concretas. No caso, se trata do ponto de vista das sociedades sobre o que constitui a mulher, ou melhor, qual a codificação necessária para a existência de uma mulher no conjunto, de modo que a indagação adequada aqui não é o que as mulheres aprendem desde meninas que devem vestir por serem mulheres, mas sim o que as mulheres aprendem que devem vestir para serem mulheres. Em ambas as sociedade as respostas a essa pergunta são radicalmente diferentes, e é aí que está o conflito.
A Comissão de Direitos Humanos da ONU de 1948 não continha nenhum representante dos povos islâmicos nem de países periféricos, muito menos mulheres desses países, sendo a noção do que constitui identidade e dignidade do sujeito nessa declaração nada internacionais, inter-culturais e muito menos universais. Como podemos condenar a
burca sob o argumento de que esta anula a identidade e dignidade da mulher se o argumento de muitas mulheres que a usam é de que a burca lhes confere identidade e dignidade? Os direitos da mulher não fazem sentido se forem atrelados a um projeto hegemônico que prescreve o que deve ser uma mulher segundo critérios locais, sem que ao menos haja um debate a respeito. Há aí uma “cegueira normativa” em relação a outras culturas não euro-americanas, uma cegueira que vem atrelada a uma visão de modernização, que por sua vez vem atrelada a uma visão específica do gênero feminino, do corpo feminino. Uma visão que é a da mulher vestida segundo o esquema da sexualidade heterossexual que comanda o mercado capitalista dos países centrais. Não procuro defender um relativismo paralisante, mas apontar que, como afirma Nader, “As perspectivas de avanço dos direitos humanos [e da mulher] estão ligadas às possibilidades de reconstrução cultural, que dependem de um processo aberto de comunicação, livre de interferência dogmática.”(3) O que significa dizer que a questão deve ser avaliada tanto do ponto de vista ocidental quanto do ponto de vista islâmico. Dizer que no território francês o que deve prevalecer é o ponto de vista francês é partir para uma interpretação intolerante e perigosa da cultura, que atrela esta a um Estado-nação e portanto a um aparato militar.
Desse ponto de vista, a reflexão a respeito da proibição da burca não pode ser
dissociada por exemplo da reflexão a respeito da quantidade enorme e crescente da cirurgias plásticas por motivos estéticos em mulheres no ocidente. Como argumenta Nader, como poderíamos explicar a outra cultura, que vê o implante de silicone nos seios como mutilação do corpo da mulher, que milhões realizam essa cirurgia em nossa sociedade por livre e espontânea vontade, pois tal aumenta sua auto-confiança, sua beleza e conseqüentemente seu valor social? Ora, não aprendem também “nossas” mulheres desde meninas que devem ter determinada imagem para serem mulheres dignas? E todos na
sociedade também não reforçam esta mensagem, sendo a pressão tão grande a ponto da
mulher que se afastar da regra pode até morrer por isso? O caso de uma mulher homossexual que se veste de “maneira masculina” e não exibe o corpo adequado a uma mulher em nossa sociedade e por isso é assassinada uma certa noite em uma rua escura não se encaixaria perfeitamente nas descrições acima? Ora, nossa sociedade é tão radical e violenta no que diz respeito à normas de gênero quanto a Arábia Saudita, pensar o contrario é se iludir. Da mesma maneira, a preocupação com a violação dos direitos das mulheres pelo uso da burca em território francês não pode ser dissociada da preocupação com os direitos das mulheres atingidas pelo colapso dos serviços sociais após as guerras do Iraque e do Golfo – segundo Nader mais de 10% das mulheres casadas se tornaram viúvas e viram suas responsabilidades redobradas após os bombardeios ocidentais.
Algumas mulçumanas argumentam: “quando me visto com a burca, as pessoas me tratam como indivíduo, e não como objeto”. Pois, nós pensamos que a burca é que objetifica a mulher e a priva de identidade. Novamente, não se trata de relativizar indiscriminadamente, mas refletir por uma perspectiva multidimensional, onde talvez as imagens da liberdade não coincidam, mas os sentimentos do que vem a ser esta, sim.


1 - Notícia no site da BBC em http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/6068408.stm
2 - Notícia no New York Times em http://www.nytimes.com/2008/07/18/world/europe/18iht-
france.4.14618011.html





















































3
 - NADER, Laura. “Num espelho de mulher: cegueira normativa e questões de direitos humanos não
resolvidas” in: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 5, n. 10. p. 68


Fontes na internet e bibliografia:


• http://en.wikipedia.org/wiki/Islamic_dress_controversy_in_Europe#Europe
• http://www1.umn.edu/humanrts/instree/cairodeclaration.html
• http://www.nytimes.com/2008/07/18/world/europe/18iht-france.4.14618011.html?_r=1
• http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/06/090622_sarkozyburca_np.shtml
• NADER, Laura. “Num espelho de mulher: cegueira normativa e questões de direitos humanos não
resolvidas” in: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 5, n. 10.
• GEERTZ, Clifford. “Os usos da diversidade” in: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 5,
n. 10.
• LÉVI-STRAUSS, Claude. “Raça e História” in: Antropologia estrutural II. Tempo Brasileiro: Rio
de Janeiro, 1993
• ROULAND, Norbert. Nos confins do direito. São Paulo, Martins Fontes, 2008.
• SCHRITZMEYER, Ana Lúcia P. “Antropologia jurídica” in: Jornal Carta Forense, ano 3, n. 21.
• DAVIS, Shelton H. “Introdução” in: Antropologia do direito. Rio de Janeiro. Zahar.

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terça-feira, agosto 12

A vida dos animais

Recentemente terminei um livro que recomendo aqui. "A vida dos animais", de J. M. Coetzee. De maneira geral, o livro discute a ética no tratamento dos animais, para alimentação ou para qualquer outra coisa. A maior parte da narrativa é tomada pela discussão da razão como critério da diferença entre os homens e os animais e como ponto de partida para a conclusão de que o primeiro pode, de maneira legítima, dispor do segundo. Em outros momentos a discussão envereda por caminhos até mais interessantes, questionando o que define a existência: a razão - a consciência ou a 'consciência de si' - ou alguma outra coisa mais intuitiva? Não espere respostas claras. Particularmente, o livro não me convenceu a me tornar vegetariana, mas levanta, no mínimo, uma boa discussão sobre quais universos éticos podemos derivar de cada proposição sobre a razão, a consciência e a existência, animal e humana, e, na minha opinião, o mais interessante é a evidência da miséria do universo ético que deriva da posição clássica que define a existência como consequência da razão ("penso, logo existo"), ou pelo menos de um certo tipo de razão. Senão na relação entre homens e animais, na relação entre os homens mesmos.

"O homem que costumava alimentá-lo, e que agora perou de fazê-lo, estica um fio três metros acima do chão de seu cercado e nele pendura uma penca de bananas. Arrasta para dentro do cercado três caixotes de madeira. Depois desaparece, fechando o portão. mas permanecendo nas proximidades, pois é possível sentir seu cheiro. Sultão sabe, agora é preciso pensar. As bananas estão ali para fazer pensar, para empurrar o sujeito até os limites do pensamento. Mas o que se deve pensar? Algo como: Por que ele está me deixando passar fome? Ou: o que foi que eu fiz? Porque ele parou de gostar de mim? Ou ainda: por que ele não quer mais estes caixotes? Mas nenhum desses é o pensamento correto. Até um pensamento mais complicado - por exemplo: qual é o problema dele, que conceito errado ele faz de mim que o leva a acreditar que é mais fácil para mim chegar até uma penca de bananas pendurada num fio do que pegar as bananas no chão? -, até isso está errado. O pensamento certo é: como usar os caixotes para chegar às bananas? (...) Dá para começar a entender como funciona a cabeça do homem (...). Enquanto Sultão continuar tendo os pensamentos errados, passará fome. Até sua fome ser tão intensa, tão avassaladora, que ele se veja forçado a ter o pensamento correto, isto é, como conseguir as bananas. Assim são testadas até o limite as capacidades do chimpanzé. O homem põe uma penca de bananas um metro para fora da malha de arame do cercado. Joga uma vara para dentro do cercado. O pensamento errado é: por que ele parou de pendurar bananas no fio? O pensamento errado (o pensamento errado-correto, todavia) é: como usar os três caixotes para pegar as bananas? O pensamento correto é: como usar a vara para pegar as bananas? A cada vez, Sultão é levado a ter o pensamento menos interessante. Da pureza da especulação - por que os homens se comportam assim? - ele é impiedosamente impelido ao raciocínio mais baixo, prático, instrumental - como usar isto para conseguir aquilo? - e assim à aceitação de si mesmo primordialmente como um organismo com um apetite a ser satisfeito. (...) E de alguma forma, ao palmilhar esse labirinto de constrangimento, manipulação e duplicidade, ele tem de entender que de jeito nenhum pode ousar desistir, porque em seus ombros repousa a responsabilidade de representar as essência macacal. O destino de seus irmãos e irmãs pode ser determinado pelos resultados que ele obtiver."
J.M. Coetzee. A Vida dos Animais

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sexta-feira, dezembro 21

M.I.A - Paper Planes

"All I wanna do is … Bang bang bang bang!!! And … kaaaaa ciiiing!! And take your money"

Um dos únicos hinos gangsta contemporâneos que não derraparam para a ingenuidade da chuva de dinheiro e conservam a ironia crítica e a sensação de que...hmmm...tem alguma coisa errada.

Desde Boogie Down Productions o gangsta rap acabou perdendo grande parte da sua patencialidade crítica. A prática de "mostrar a realidade como ela é" acabou virando mais exaltar a realidade como ela é. É verdade que sempre existiu uma linha fina entre os dois e a diferença entre um artista incorporar um personagem seus vídeos e letras, com o objetivo de mostrar a realidade das gangues, do tráfico de drogas etc. e simplesmente abanar notas de cem sem maior objetivo está no tom da ironia, que pode ser presente em um sampler, uma tomada do clip, uma sutileza. Diferente do rap crítico que segue a tradição de De la Soul ("de la soul, black medallions, no gold"), marcado pelo humor, pela crítica aberta e séria (atualmente grupos como Little Brother continuam essa tradição), o gangsta rap sempre dependeu especialmente dessa sutileza para se demonstrar crítico, mas de alguma maneira a mensagem perdeu-se e se transformou em uma gratuita celebração do dinheiro ganho, das prostitutas e do pimp style em geral. A história, sempre implacável, levou grupos excelentes como Boogie Down Productions a gerar tipos como R. Kelly, lamentável.

M.I.A segue firme fazendo personagens, mas sempre conservando as sutilezas, as ironias, o samplers certos na hora certa e as boas tomadas em seus vídeos, sempre acusada de glamurizar as guerrilhas africanas, assim como os saudosos mestres do gangsta rap sempre foram acusados glamurizar o tráfico de drogas.

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terça-feira, dezembro 18

A posse do próprio corpo e a prática da liberdade

Bom, este blog não é muito pessoal, costumo postar comentários sobre coisas que acontecem à minha volta e não fazer a linha querido diário, mas nos últimos dias passei por uma experência que tenho vontade de comentar aqui. Visto também minha incapacidade de manter um fluxo constante de textos bons acho que vale a pena desviar um pouco do objetivo inicial.

O episódio é uma tatuagem. Eu fiz uma tatuagem e, ao dividir a experiência com minha mãe (sim, acreditem) ouvi o seguinte comentário: "A posse do próprio corpo é um ato político que liberta". Obvimente minha primeira reação foi "Nossa, mãe". Mas seguido ao choque inicial vieram algumas reflexões, bem superficiais, mas enfim.

Em primeiro lugar, penso sobre a relação entre liberdade e corpo no prórpio Marx, clássico. O trabalho assalariado, ou a venda do trabalho em si, visto como venda do corpo - a relação do homem com o seu entorno, dada por meio do trabalho e, no limite por meio do corpo, o primeiro instrumento de trabalho - , e o advento desta realidade como simultâneamente ausência e presença de liberdade. O trabalhador 'livre' é aquele que vende seu trabalho, se encontra em uma situação onde finalmente é proprietário de si mesmo, mas ao mesmo tempo, o funcionamento do sistema capitalista e a exploração do trabalho não permitem que essa posse se torne efetivamente liberdade. Como sabemos, Marx em seus momentos otimistas - olhando para o manifesto comunista, mas sem cair no mecanicismo do marxismo ortodoxo - acreditou que isso se tratava de uma situação passageira, pois a posse do próprio corpo leva à percepção da liberdade e, o trabalhador que vende seu trabalho tem assim condições de reverter a situação em direção à emancipação enfim. Para o objetivo deste post basta esta idéia: o nexo entre a posse do próprio corpo e a liberdade no início da modernidade, e sua relação com o trabalho, sendo a personagem extrema a prostituta.

Bom, muito tempo se passou e este mesmo nexo paradoxal permanece, com a diferença de que ele tem se manifestado mais em outros momentos além do trabalho assalariado e dos profissionais liberais.

A procura da liberdade pela posse do próprio corpo, e, simultâneamente, a perda da liberdade pela impressão em nossos corpos de categorias que nos escapam, com implicações políticas profundas, persiste. Tais categorias, para os mais radicais, passam pelo gênero, o estabelecer, através da persistência de inúmeros rituais sociais, da relação entre uma diferença fisiológica e um lugar na sociedade ou traços do 'espírito' (quem nunca ouviu dizer que as mulheres são mais frágeis ou mais emocionais, um eufemismo pra nos chamar de histéricas?). Ou então o nexo que se estabeleceu entre a cor da pele e uma 'raça', um conjunto de traços, de disposições, e todos os discursos que se construiram em torno disso, desde a racismo científico até a construção da identidade negra, um paradoxo em si, pois construída dentro de uma relação de poder: ao se inferiorizar o negro, este foi contruído dentro da sociedade moderna, deixou de ser um indivíduo e passou a ser em primeiro lugar a categoria 'negro', ao mesmo tempo, a procura da emancipação passa pelo reforço da categoria, a exaltação da identidade, da negritude.

O paradoxo da relação entre posse do próprio corpo e a liberdade continua: somos mais livres ao exaltar tais impressões feitas em nossos corpos pelo poder, colocá-las lado a lado e reconhecer seu valor igual, ou ao rejeitá-las, num ato desesperado de nos tornarmos indivíduos, de tomar posse de nós mesmos?
Não sou otimista suficiente pra acreditar na total destruição das identidades e na performatividade do indivíduo contemporâneo. Os processos de socialização através da identificação com um conjunto - e suas implicações políticas - estão aí mais que nunca. O problema não está na socialização através da identidade, mas no status de identidade de alguns corpos e de normalidade de outros: o corpo negro é uma identidade (queira o seu dono ou não), o corpo branco é apenas um corpo.

De qualquer maneira, enquanto as mulheres continuam sendo histéricas, o movimento negro se rebate no paradoxo da exaltação e a humanidade continua escrava da venda do trabalho nos sobram algumas eventuais tatuagens, práticas episódicas da liberdade, onde por um segundo nos submetemos à dor voluntariamente e escolhemos nós mesmos, assim, dentro de inúmeras possibilidades, o que será impresso em nossos corpos.

Mesmo que tais possibilidades não escapem àquelas figuras presentes no mundo social, que adquirem sentido diante dos outros e fazem referência a campos comuns (nós mesmos não escapamos a tal). Tal não anula que a posse do próprio corpo pode ser encarada como prática de liberdade, uma liberdade ainda paradoxal, pois seu ato é sempre social, mas afinal, qual liberdade não o seria?

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